Horia-Roman Patapievici sobre Olavo de Carvalho e Alexandr Dugin

(Traducere din limba română în limba portugheză realizată de Elpídio Fonseca.)

ILD [În Linea Dreaptă][1] escreve há acerca de Alexandre Dugin. Hoje Dugin é mainstream, conhecido universalmente tanto na Romênia quanto no Ocidente, e isto é muito bom. Como dizia Horia-Roman Patapievici, falando do livro Statele Unite și Noua Ordine Mondială – O dezbatere între Olavo de Carvalho și Aleksandr Dughin„[Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial- Um debate entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin], temos de conhecer o inimigo (declarado) para podermos combatê-lo.

O livro foi publicado pela Humanitas, por sugestão de Elpídio Fonseca, tradutor brasileiro de Andrei Pleșu, Gabriel Liiceanu, Horia-Roman Patapievici e de outros autores romenos. Elpídio é um dos alunos e amigos do filósofo brasileiro Olavo de Carvalho.

Acompanhei, pelas redes sociais e pelos sites pró-russo-ceauşistas romenos, as reações dos pró-russos/pró-ceaușiștas (na maior parte das vezes, coincidem essas duas categorias) ao lançamento deste livro. Na primeira fila com o infame Cotidianul, depois das entrevistas de HR Patapievici na imprensa e no rádio, todos descobriram, pela enésima vez, que HR Patapievici é um “traidor da pátria”; os corvos velhos e fedorentos da antiga Securitate comunista, agora duginistas, foram colocados no fogo. Mas não se preocupem, há uma solução –e eles nos salvam, unidos, dos traidores e colonizadores americanos.

Com os pró-russos declarados, os autores de Criticatac.ro, Sputinik.com, Katehon.com, Argumentesifapte.ro etc. descobri que Dugin é um “João Ninguém”, e que HR Patapievici é, se não um adepto das idéias de Dugin, ao menos é alguém que o promove, sendo também culpado de tornar conhecido esse “João Ninguém.” O mesmo “João-Ninguém” que é colega deles de plataforma e de idéias em Katehon.com, Sputnik.com e todas as outras plataformas que não se esforçam muito para esconder sua aproximação com o Kremlin, aproximação financeira e/ou “intelectual”.

„Statele Unite și Noua Ordine Mondială – O dezbatere între Olavo de Carvalho și Aleksandr Dughin” é um livro muito importante.

Horia-Roman Patapievici, 20 de novembro de 2016. Transcrição feita por Costin Andrieş da apresentação na feira de livros Gaudeamus:
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„Statele Unite și Noua Ordine Mondială – O dezbatere între Olavo de Carvalho și Aleksandr Dughin” [Os Estados Unidos e a Nova Ordem Mundial – Um debate entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin] é um livro bem incomum porque representa o debate entre dois homens que não podem debater nada um com o outro, porque a divergência entre eles é tão grande que não é possível o diálogo. O livro existe, no entanto, por causa de um mal-entendido. E gostaria de falar um pouco da pré-história deste livro. Uma das personagens é um professor de sociologia na Universidade de Estado de Moscou, chamado Alexandre Dugin, que é um ideólogo da Rússia de hoje, um homem que oferece idéias, conselhos e direções a uma parte importante da elite política da Rússia de Vladimir Putin. É, portanto, um filósofo que funciona num sistema universitário de estado e que tem posições oficiais, e quando já não são oficiais, as posições dele são do tipo do conselheiro do príncipe, uma tradição importante na área bizantina que ele assume hoje, seja porque o faz de maneira oficial, seja porque o faz de posições não-oficiais.

O outro, Olavo de Carvalho, é um filósofo brasileiro que não ocupa nenhuma posição oficial, que está exilado. Ele saiu do Brasil porque o meio intelectual brasileiro era sufocante para um homem que é de uma orientação conservadora, ou liberal-conservadora como ele, que não encontrou nenhuma audiência em seu país e se retirou nos Estados Unidos. Mora numa casa de campo, não tendo nenhuma posição oficial, ao contrário, lecionando a filosofia para pessoas que encontra na internet. Dito de outro modo, são pessoas que entram numa relação perfeitamente privada e voluntária com Olavo de Carvalho, que de uma casa de campo dá aulas de filosofia. A antítese não pode ser maior entre um filósofo particular e um filósofo público do que a entre Olavo de Carvalho e Alexandre Dugin.

Como nasceu este livro? Nasceu do fato de ambos, Alexandre Dugin e Olavo de Carvalho terem tido reflexões ou interesses, ou testemunhado publicamente em livros, artigos ou por tomadas de posição, o interesse deles diante do pensamento tradicional. O “Pensamento Tradicional” é algo que tem que ver com nomes como Julius Évola e René Guénon. Trata-se do pensamento tradicional que entre nós, na Romênia, teve, como sabeis, ecos culturais importantes. Quase todos os intelectuais do interbélico conheciam bem Guénon e conheciam bem, da cultura alemã, Oswald Spengler, ao menos. Como tais são ao menos dois autores que na Romênia tinham autoridade nos meios mais diversos: René Guénon e Oswald Spengler.
O Brasil é também um país que tem um interesse cultural diante do pensamento tradicional, portanto, diante dessas duas figuras importantes. Não são os únicos, refiro-me a eles para simplificar o discurso. Sendo Évola e Guénon muito diferentes, mas sendo ambos críticos da modernidade ocidental que traduzem, explicam e legitimam em termos desta tradição que teria existido e a que fazem sempre referência. Ora bem, porque de Carvalho e Dugin tiveram interesse diante do pensamento tradicional, alguns brasileiros tiveram a idéia de pôr em diálogo um russo que se refere ao pensamento tradicional e um brasileiro que se refere ao pensamento tradicional. Na idéia de que eles se encontram na crítica que fazem, Dugin, ao Ocidente, Olavo de Carvalho, a alguns aspectos do Ocidente, se encontrariam no terreno deste pensamento tradicional. Ora, não podiam chutar melhor na trave do que chutaram, porque esses homens são rigorosamente irreconciliáveis, e a assim pressuposta conciliação de um terreno comum no pensamento tradicional não pode existir em condições em que é reivindicada por Dugin e a maneira que é reconhecida por de Carvalho. Por que é irreconciliável? Para entenderdes melhor porquê, quero expor a doutrina de Alexandre Dugin.

As premissas, como vos disse, são aparentemente as tradicionais – Guénon, Évola, Kumaraswamy e a insatisfação diante do modo como ele, o Ocidente, como entidade cultural e civilizacional, se desenvolveu diante das grandes correntes religiosas que existiram sempre nas culturas e nas civilizações do mundo e, especialmente, diante do cristianismo. Portanto, o cerne da discórdia é o modo como a modernidade, respectivamente o Ocidente, se relaciona com as tradições religiosas e espirituais, com o cristianismo em particular.

A declaração de Dugin é a seguinte: sou firmemente contra os valores ocidentais, essencialmente modernistas e pós-modernistas. O Ocidente, segundo ele, é o centro, cito, “o centro da época kali-yuga, o seu motor e coração.” A cada vez que eu citar, direi que estou citando, não por pedantismo, mas para distinguirdes firmemente o que é excessivo e delirante nos textos dele e não creiais que me pertence esta interpretação, esta paráfrase. Respectivamente, representa não o modo como eu vejo o espírito do texto, mas o modo como ele construiu o texto em sua letra.

E agora, a doutrina. Dugin diz em essência que há quatro grandes doutrinas políticas, quatro grandes vias. A primeira via é o liberalismo, a segunda é o comunismo, e a terceira é o fascismo e o nazismo, e a quarta via é a que ele, Alexandre Dugin, propõe.

Eu vos fiz esta descrição para saberdes onde situo o discurso que ouvireis em continuação. A doutrina dele é a seguinte: o comunismo, o socialismo e o fascismo fracassaram na luta contra o capitalismo. É postulado o fato de que contra o capitalismo tens de lutar. Este é um traço claramente socialista, tens vontade de dizer, se não te lembrares que também os nazistas eram anti-capitalistas e mesmo a variante italiana do fascismo era anti-capitalista, numa medida menor, mas a correção que quero trazer era a corporativista. Todas estas variantes de anti-modernismo têm como traço comum o anti-capitalismo.

Daí, diz ele, enquanto todos lutaram contra o capitalismo liberal e todos representam doutrinas constituídas anti-capitalistas, o que nós devemos fazer é construir uma síntese destas duas formas de luta contra o capitalismo, respectivamente o fascismo-nazismo e o comunismo.

Do comunismo, diz Dugin, que é “a segunda via”, tem de ser retirado o que é ruim, ou seja, o ateísmo, o materialismo e o cosmopolitismo, e mantido todo o resto que é bom, respectivamente, a solidariedade social, a justiça social, o socialismo e a atitude holística geral, a preeminência da sociedade sobre o indivíduo. Todas essas etiquetas que ouvis são dele, não são minhas. Os comunistas, defende ele, não mataram. Ele combate o pressuposto genocida comunista russo-chinês que numa etapa do diálogo lhe formulara Olavo de Carvalho. Do fascismo-nazismo, que é a terceira via, diz Dugin, têm de ser retiradas as coisas ruins. Estas são, cito, o racismo, a xenofobia e o chauvinismo, e mantemos todo o resto, que é bom.

Mantendo o que é bom no comunismo e no fascismo-nazismo, obtemos, diz Dugin, uma quarta via, que se chama “Nacional-bolchevismo”. O Nacional-bolchevismo, estou citando, “representa o socialismo sem o materialismo, o progressismo e o modernismo, assim como a terceira via, ou seja, o fascismo-nazismo, que é falta de racismo ou nacionalismo.” Tem de ser mantida, diz ele, na “quarta via”, tanto a “direita dos valores”, é a expressão dele, quanto a “esquerda do trabalho” – também é a expressão dele. Esta seria o “nacional-bolchevismo”, um outro nome para a “quarta via”, a teoria política que deveria estar na base da nova ordem mundial que ele chama “eurasianismo”, e que deveria passar para a iniciativa e administração da Rússia, que é o principal poder numa aliança com a China, que representa o principal poder asiático.

O conteúdo desta doutrina que é o “nacional-bolchevismo” – este é o nome político, o nome geopolítico é “eurasianismo”, estou citando Dugin: “o sujeito humano da “quarta teoria política” pode ser encontrado no conceito heideggeriano de Dasein, “ser aqui”. “Dasein é uma instância concreta. Qualquer pessoa e qualquer cultura possui um Dasein”, terminei a citação. Dei-vos este exemplo para entenderdes o ecletismo das referências de Dugin e mais tarde farei uma reflexão a este estilo de ecletismo. Mais concretamente, diz ele, “ a visão importante acerca do Nous do filósofo grego Plotino corresponde ao nosso ideal. Portanto, a doutrina nacional-bolchevista tem no centro dela um sujeito humano que representa o Dasein de Heidegger e o elemento importante que corresponde ao nosso ideal é a visão do Nous de Plotino.” Entendei daqui o que quiserdes.

Nas reflexões dele aparece uma crítica ao Ocidente que contém igualmente as teses radicalmente relativistas, tipicamente pós-modernas (ele é contra o pós-modernismo, ele o disse), portanto teses tipicamente pós-modernas que desconstroem a noção de realidade ou a noção de verdade, nas pegadas de Derrida, segundo o qual estas noções são típicas das culturas ocidentais e não se aplicam fora delas.
Quando de Carvalho invoca a realidade objetiva, Dugin replica que a realidade é uma noção ocidental e que como tal ela não se aplica à Rússia, como não se aplica nem a “verdade”, outra noção puramente ocidental. Portanto, a Rússia deve ser tratada de uma maneira que escapa às categorias ocidentais e deste modo, reencontramos o relativismo radical do pós-modernismo, nas pegadas do desconstrutivismo de Derrida, que exatamente ele combate como sendo justamente uma das pragas ocidentais.

Cito de Dugin; “A única coisa sobre a qual insistimos, para a criação de uma cooperação, é o afastamento dos preconceitos anti-comunistas e igualmente anti-fascistas. Temos, portanto, de rechaçar firmemente tanto o anti-comunismo quanto o anti-fascismo.” Terminei a citação. A quarta via que está na base da Nova Ordem Mundial realiza, diz Dugin, a velha teoria dos kremlinólogos ocidentais, a assim dita teoria da convergência que predizia a síntese das formas políticas do socialismo soviético e do capitalismo ocidental.

É complexo, não? Em conclusão, cito: “creio que a quarta teoria política, o nacional-bolchevismo e o eurasianismo podem ser de grande utilidade para os nossos povos, os nossos países e as nossas civilizações. A palavra-chave, diz Dugin, é multipolaridade em todos os sentidos, geopolítico, cultural, axiológico, econômico e assim por diante. Mas, diz ele, há alguns que pensam diferentemente. Quem são os que são contra tal projeto? Os que querem impor a uniformidade, o pensamento único, um modo de vida único, o americano, um mundo único. Eles estão contra nós. O professor Carvalho é um desses. Doravante sabemos isto. Sabemos quem é o inimigo. O debate se encerrou, mas a nossa luta está apenas começando”. Terminei a citação de Alexandre Dugin.

O resumo que fiz da doutrina eurasiática e da doutrina do nacional-bolchevismo, embora tenha mantido apenas alguns traços e não os detalhes, os detalhes encontrareis no livro, é fiel. Por este motivo quis empregar as palavras dele e não as minhas.

O que me parece extraordinariamente interessante nesta “quarta via” é que desapareceu a sua vergonha.

De maneira normal, no mundo em que nós vivemos, ou seja, um mundo que tem nas suas costas, na sua proximidade, o século XX, certamente o século mais infame da história da humanidade, em que apenas no campo comunista os estatísticos dos crimes enumeraram 140 milhões de vítimas, uma vergonha que te impede de reivindicar em voz alta doutrinas que são responsáveis por tal morticínio em massa. De acordo com isso, se nos referimos ao Holocausto, à Segunda Guerra Mundial, e aos crimes que são postos de maneira direta com as doutrinas fascistas e nazistas e enumeras dezenas de milhões que vem deste tipo de doutrina, se os invocares hoje, dizendo que devemos afastar algumas coisas ruins dele e manter o que é bom neles, segundo penso, para não dizer outras palavras fortes, trata-se de um momento em que a vergonha desapareceu do espaço público.

Conforme penso, o sentimento de solidariedade diante destes democídios e destes genocídios (por democídio entendo a morte de cidadãos pelos seus próprios governos em tempo de paz), porque a forma mais elementar de reação moral, de clareza moral diante da existência do democídio, exige que não recicles as doutrinas que fortaleceram os governos que serviram a eles, que não recicles as doutrinas como reutilizáveis. Este é um ponto.

O segundo é o ódio extraordinário, tenaz, inverossimilmente estúpido e encarniçado contra o capitalismo. É absolutamente incrível! Em termos demográficos, em termos de prosperidade, em termos de ciência, em termos de medicina, em termos de higiene, em termos de urbanismo…Por qualquer lado que olhardes, se fizerdes o balanço entre o que aconteceu na humanidade até a Revolução industrial – e tomemos grosso modo como termo 1780, portanto, se tomamos tudo, a demografia, a prosperidade, o ganho per capita por habitante até 1780 e de 1780 até hoje, a diferença é gigantesca. Em termos de gráfico, o que quer que puserdes na abscissa cresce muito lentamente, muito lentamente até 1780. O que quer que puserdes na abscissa, o nível de saúde, o ganho per capita por habitante, produtos tecnológicos e assim por diante, de 1780 em diante cresce exponencialmente.

O que significa modernidade? Há pelo menos quatro elementos fundamentais. Um é o capitalismo, este capitalismo caluniado. Tomei o termo de 1780 porque ele representa um termo plausível para marcar a introdução do sistema de fábrica, ou seja, de uma revolução industrial na Inglaterra, que situa as evoluções capitalistas em outra etapa, que continua até hoje. O segundo elemento da modernidade é o espírito científico, a racionalidade científica, ou se quiserdes que falemos em termos de Aristóteles, é a hegemonia da razão entre as faculdades da alma.

O terceiro traço fundamental é uma nova relação entre o indivíduo e o estado que exprimimos de muitas maneiras. Exprimimo-lo como os direitos do homem, como o domínio da lei, do estado de direito, com o individualismo, cidadania, constitucionalismo. É uma nova relação, sui generis, entre o indivíduo e o estado que é típica da modernidade.

Por fim, é o pôr em prática de um velho dito evangélico: “Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus”, respectivamente uma separação dos poderes no Cosmos que no interior da cidade, da vida política, se traduz seja pela secularização, seja pela separação entre a Igreja e o Estado. De qualquer modo, uma separação do religioso do político que tornas ilegítimas, do ponto de vista da modernidade, as religiões políticas. Ou seja, exatamente o que os críticos do capitalismo do século XX, respectivamente o nazismo e o comunismo, eram. Eram religiões políticas. Elas, como críticas da modernidade, são também anti-modernas de modo radical porque criticam pela negação, é uma crítica exterminadora exatamente dos pilares fundamentais da modernidade: o racionalismo científico, a separação dos poderes no Cosmos, entre o religioso e o político, o capitalismo e a idéias do estado de direito, que é substituído pelo estado totalitário.

Como tal, esses elementos doutrinários que Dugin chama “a segunda via” e “a terceira via”, respectivamente o comunismo e o fascismo-nazismo, representam formas radicais de anti-modernidade política que levaram a cerca de 200 milhões de mortes no século XX. É inimaginável que uma teoria política que critique a modernidade seja construída hoje nestas bases, na idéia de que tomamos o que é bom dele e jogamos no lixo o que é ruim. Como se do interior do nazismo pudesses operar uma distinção entre o que é bom, e podemos manter, e o que é ruim, a que temos de renunciar. Ou seja, como se fosse um nazismo com face humana.

O que nos propõe Dugin como sendo “a quarta via” representa um comunismo com face humana, respectivamente, peço-vos que vos relembreis, 140 milhões de mortes provocadas apenas pelos regimes comunistas, em todo o mundo, portanto 140 milhões de mortos com face humana e 6 milhões de judeus exterminados, um Holocausto com face humana. A isto acrescentamos o quê? Uma crítica ao pós-modernismo e à globalização que está sob as asas do que para Dugin é Satanás, respectivamente os Estados Unidos da América. Uma nota importante acerca do duginismo, de sua teoria eurasiana é que oferece uma doutrina política para o sentimento que é hoje cada vez mais difundido no Ocidente e a quem inclusive os oficiais da União Européia, ou dos governos ocidentais, dão voz. Trata-se desta paixão coletiva estúpida, inacreditavelmente estúpida e desavergonhada que é o anti-americanismo.

Algumas vezes, manifesta-se sob formas engenhosas. Quando a União Européia se propõe, por exemplo, a fazer um exército diferente da OTAN é de fato uma expressão aparentemente engenhosa de anti-americanismo. Um exército da União Européia equivale a uma passagem à reserva da OTAN, e a OTAN não é nada sem a presença americana no continente europeu. E outras vezes tem formas explicitamente públicas, como são as observações deste infeliz presidente da Comissão Européia, Jean Claude Juncker, que se empertiga contra os Estados Unidos, dando voz, pela posição que ocupa, a uma anti-americanismo muito primário e inconveniente.

A nova paixão européia é o anti-americanismo, Entre as duas Guerras houvera o anti-semitismo. Hoje há um anti-semitismo quase moderado, para não falar anti-semitismo, mas a crítica endereçada ao estado de Israel que hoje na Europa ocidental toma notas que lembram o velho anti-semitismo e é uma coisa que realmente te enfurece, uma coisa que pertence ao recrudescimento do descaro no espaço público de hoje.
Vou encerrar com uma ênfase em que não mencionei até agora e que é a militância de natureza militar da doutrina da “quarta via.”

Cito de Dugin: “Todos que têm uma análise negativa da globalização, da ocidentalização e do pós-modernismo….” eu tenho uma crítica endereçada ao pós-modernismo, tenho uma crítica filosófica ao pós-modernismo filosófico. O literário e artístico agrada-me muito, não tenho nada contra ele, eu mesmo sou um pós-moderno do ponto de vista artístico, mas filosoficamente tenho grandes objeções à pós-modernidade. Reconheço-me de algum modo neste tipo de crítica ao pós-modernismo? Absolutamente não! O chamado de Dugin, todos os que criticais a pós-modernidade, vinde sob a bandeira da “quarta via” e do eurasianismo é absolutamente militar é inepto. Diz Dugin: “Todos que têm uma análise negativa da globalização, da ocidentalização deveriam coordenar seus esforços para a criação de uma estratégia de resistência diante do mal onipresente. O império americano deve ser destruído! O meu escopo é recrutar soldados para a luta contra o Ocidente e a instauração do império eurasiático universal!”

Esta é a palavra final da doutrina eurasiática. O recrutamento de soldados para uma luta em que filosoficamente se trata de combater a modernidade, contra o estado moderno e contra a secularização, retomando as obsessões fantasmagóricas e criminosas, genocidas do anti-capitalismo que são as do nazismo e do comunismo. Traduzido politicamente, a luta com armas contra os Estados Unidos e em favor da Rússia, a sucessora da União Soviética. O porta-voz deste sonho geopolítico, Vladimir Putin, disse que a maior catástrofe geopolítica do século XX foi a derrocada da União Soviética. Portanto, não foi a criação da União Soviética, com o cortejo de crimes que criou, mas a derrocada dela. Não foi a instauração do mal representou a catástrofe geopolítica, mas a derrocada salutar do mal.

Encerro, dizendo-vos o seguinte. Negligenciei Olavo de Carvalho e errei. Não tive tempo à disposição para lhe dar lugar. Porque a voz dele é completamente diferente. É uma voz da racionalidade, da informação científica e da coragem moral. Porque não encontrareis uma voz que ladra, não encontrareis uma voz que se lamenta, uma voz que treme e que diz, como fez a comissária de política externa da União Européia, Mogherini, que rompeu em choro quando aconteceu não sei que atentado. Não rompe em choro, não, tens de fazer tremer os que cometeram o crime. Ora, Olavo não tem a voz que treme, tem a voz viril, do lutador, mas que é o lutador individual que sabe em que valores crê e que sabe que esta luta merece ser travada. Porque, no fundo, é a luta pela nossa civilização e por toda a diferença que faz a evolução lenta, de milhares de anos, até em 1780 e a evolução espetacularmente exponencial de 1780 em diante, que é o dom concedido à humanidade pela modernidade.

Agradeço-vos muitíssimo! Comprai este livro, lede-o, meditai-o e tenho ainda uma única coisa que dizer. Pensai na vossa posição como romeno enquanto o ledes. O projeto eurasiático é um projeto que do ponto de vista nacional, para os romenos, é um projeto que põe em discussão e de fato anula a nossa estatalidade. Lembrai-vos, eu vos peço, das posições de P.P. Carp. Desde 1878 quando a paz de Berlim nos impôs a perda da Bassarábia do Sul em favor o nosso aliado na guerra contra os turcos, que nos trouxe a independência, mas aliado que estacionou na România, não saiu mais e que já não nos reconheceu a co-beligerância. Num século, o XIX, em que ao menos cinco vezes, a tropas do tzar nos ocuparam os principados. Como romeno, lembrai-vos desta veia importante da cultura pública romena, que é não a posição anti-russa, mas a posição lúcida da apreciação do fato de que, assim como disse P.P. Carp: Nada com a Rússia em política. Isto não significa uma atitude hostil diante da Rússia. Absolutamente não. Somos os primeiros que reconhecemos, porque a cultura romena é uma cultura que foi extraordinariamente aberta para os valores da cultura russa. Ouso dizer que nenhures se derramaram lágrimas de emoção cultural diante da sensibilidade russa como se derramaram na cultura romena, porque diante disto, os romenos são realmente irmanados com os russos (….) Falando politicamente, a política russa sempre se fez, não conosco, mas contra nós.

O artigo original escrito por Costin Andrieş, bem como sua transcrição da apresentação de Horia-Roman Patapievici na Feira Gaudeamus, realizada no último dia 20 de novembro de 2016, podem ser lidos aqui. Agradeço a Costin Andrieş por ter filmado a apresentação e por tê-la transcrito para o romeno.

http://inliniedreapta.net/horia-roman-patapievici-politica-ruseasca-s-a-facut-intotdeauna-nu-cu-noi-ci-impotriva-noastra/

[1] O título do site é um jogo de palavras em romeno: în linea dreaptă significa tanto “em linha reta”, como “na linha direita”. [N.T.]

vedeti si: Horia-Roman Patapievici despre Alexandr Dughin și Olavo de Carvalho, la la RFI si Adevarul.ro. Traducere în portugheză

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