Pensamentos acerca de Olavo de Carvalho (1947-2022)

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“”Por que chorar quando as pessoas vão ao encontro do seu Criador? Deveríamos chorar quando elas nascem neste vale de lágrimas.”

“Hoje sei, mais do que nunca, que tudo neste mundo se desfaz em pó, inclusive os valores humanos mais nobres e sublimes, e só o amor permanece, pois, o amor é Deus e aquilo que Deus amou por uma fração de segundo Ele jamais cessará de amar.”

“Um dia, espero, estaremos todos lá, aos pés de Nosso Senhor, e nossas lágrimas de alegria inundarão universos inteiros.

Olavo de Carvalho

Tradução romena por Elpídio Fonseca

Olavo de Carvalho partiu para o Senhor. Estava preparado. Não tinha medo da morte. Agora escapou do sofrimento físico, de todas as decepções, calúnias e traições de que foi vítima, principalmente nos últimos anos. Agora recebe ele a recompensa por todos os bens que fez, tantos foram eles e tão grandes, que somente Deus pode mensurá-los!

Mais difícil é para nós, os que ficamos, ainda uma vez, órfãos. Não me é fácil escrever estas linhas. Não se trata apenas de tristeza, mas também de timidez, de medo de não encontrar as palavras que conviria dizer neste momento.

Conheci Olavo de Carvalho graças a Jerônimo Moscardo, o embaixador do Brasil no final dos anos de 1990. O embaixador era um homem extremamente dedicado a sua missão, especialmente na diplomacia cultural, e um grande amador da Romênia. Em 1997, criara, no quadro da embaixada um serviço cultural, para o qual precisava de colaboradores romenos. Eu terminara a residência médica, mas não era fácil então obteres posto de médico especialista, se não tivesses pistolão. Por saber português, apresentei-me para a entrevista para o serviço cultural e cheguei a trabalhar ali por alguns meses. Então uma colega me pôs nas mãos o primeiro texto de Olavo de Carvalho que li na minha vida.

Li-o com apetite. Era um ensaio acerca do futuro do pensamento brasileiro. Tratava-se de homens e pensamentos de um país distante, acerca do que passaria e do que ficaria depois destes, acerca do aniquilamento de algumas coisas que o mundo considera “especificamente brasileiras” – como o samba e o carnaval – e acerca do valor universal de outras coisas brasileiras, das quais as pessoas sabem menos, lamentavelmente – as obras de Mário Ferreira dos Santos, Otto Maria Carpeaux, Gilberto Freyre [e Miguel Reale.] (Acréscimo do tradutor. [N.T.])

O que me surpreendeu de maneira particular era que Olavo de Carvalho discutia essas questões de uma maneira que, em si, é universalmente válida. Os critérios e os juízos dele podiam funcionar igualmente bem não apenas no exótico Brasil, mas também em outras línguas, em outros espaços culturais. Eu tinha a sensação de reconhecê-lo, embora fosse a primeira vez que lia algo por ele escrito. Sentia essa alegria que vives, vendo como alguém é capaz de pôr em palavras adequadas (e simples!) realidades complicadas que, embora não nos sejam totalmente estranhas, pois de algum modo as intuímos todos, no entanto, permanecem em nós não ditas, algures na mente, esperando ser explicadas. E quando alguém as põe em equação, límpida e luminosamente, temos vontade de exclamar: “é assim!” “bem dito!”, com reconhecimento e admiração por aquele que conseguiu nomeá-las.

Mais tarde eu haveria de convencer-me ainda mais deste dom de Olavo de Carvalho: o de que, embora aprendesses continuamente com ele, o que ele dizia não era “tirado do chapéu”, era algo compatível com a tua experiência, verificavas sozinho, sem dificuldade, a verdade de suas palavras logo que eram ditas. Podias convencer-te em tua vida, em teu universo cultural, que as coisas eram mesmo assim. Porque ele não queria ter razão, mas entender a realidade, procurando com humildade e servindo a Verdade.

A imensa erudição, o brilho da inteligência, mas também a incrível coragem pessoal, além da “língua afiada”, o grande dom da palavra de que era dotado permitiu a Olavo de Carvalho desfazer sozinho, sem reticência, sem complexos, montanhas de faces esculpidas, de mentira e tolice, acumulados em decênios de marxismo, expondo-lhe à vista a sujeira, dispersando ilusões e despertando, assim, para a verdade, inúmeras consciências. Começara a fazer isso já desde os anos de 1990. E via-se. Já publicara “O imbecil coletivo”, sacudindo tectonicamente os estratos geológicos de falsas autoridades culturais e acadêmicas sedimentadas nos últimos decênios por todo o Brasil.

Os comunistas não podiam não se dar conta do perigo que representava tal homem para a hegemonia deles sobre a cultura brasileira, hegemonia que eles tinham crido até então inabalável. E, assim como sabemos como eles fazem, não estando em condições de vencê-lo em duelo de contra-argumentos, decidiram matar aquele que lhes estragava os planos. Nesse tempo de que falo, o plano era matá-lo fisicamente (o assassínio moral foi organizado mais tarde, mas vou tratar também disso mais para a frente). Olavo foi avisado por alguém dos serviços brasileiros de que um agrupamento comunista estava preparando a sua eliminação. Foi aconselhado a sair do país. E como seu amigo, o embaixador Moscardo, o convidava à România, Olavo de Carvalho veio e viveu alguns meses em Bucareste, juntamente com sua esposa, Roxane, e dois de seus filhos, os mais jovens.

Devo ao embaixador Moscardo a grande chance de ter conhecido então o filósofo brasileiro. O embaixador, que sabia que entusiasmo me despertara a leitura daquele primeiro texto, “O futuro do pensamento brasileiro”, e me dera, nesse ínterim, também o livro “O imbecil coletivo”, reforçando e decuplicando o meu entusiasmo inicial, arranjou as coisas de tal maneira que eu pudesse falar pessoalmente com Olavo, tão logo ele chegasse a Bucareste.

Tenho ainda de dizer que, olhando retrospectivamente, o intervalo de tempo que passei na Embaixada do Brasil foi para mim totalmente, mas totalmente providencial. Não quero dizer que assim o entendia então – ao contrário, eu queria poder trabalhar em minha área médica e, se tivesse de escolher, não me dirigiria àquele serviço cultural, embora fizesse muitos anos que estava fascinada com a língua portuguesa e passara também a ficar mais curiosa em descobrir a grande cultura brasileira; e embora considerasse, na verdade, um privilégio poder trabalhar na equipe de um homem como o embaixador Moscardo.

Mais tarde, Deus me deu também a chance de voltar para a medicina, mas primeiro me deu a de conhecer Olavo de Carvalho.

E Olavo amou muito a Romênia. Então ainda não se manifestavam aqui os jovenzinhos neo-marxistas de tipo URS-Plus, Hotnews, G4, Digi24, e a Rádio Europa Livre ainda não se transformara totalmente em seu contrário. As pessoas ainda não tinham esquecido, e a demarcação simbólica, o que separava a Romênia normal da ordem dos ladrões e das filas de grosseiras comunistas e pós-comunistas, era ainda visível e contava. Sendo uma pessoa aberta, comunicativa, plena de calor e humor, imediatamente Olavo fez amigos. Sentia-se bem entre eles porque não era necessário “partir do zero”, explicar-lhes e convencê-los de quão ruim é o comunismo, como acontecia no país dele. Quando lhe contávamos as nossas histórias de família, ele as entendia não “como os ocidentais”, mas como um de nós. E até mesmo nesse tempo aprendera por contingência a língua e chegou a conseguir ler em romeno.

No período de sua estada na Romênia, Olavo deu uma série de conferências de filosofia, organizadas pela Embaixada do Brasil. Tive o privilégio de ouvi-las – lamentavelmente não a todas.

Por intermédio do embaixador Moscardo, Olavo conheceu Micaela Ghițescu, uma distinta especialista em língua portuguesa, autora de manuais e dicionários, tradutora de literatura e, mais tarde, a diretora da revista Memória – fora detenta por motivos políticos no tempo do comunismo.

O embaixador pôs Olavo também em contato com Andrei Pleșu e Gabriel Liiceanu (com Horia Patapievici ele se encontrou mais tarde, chegaremos também lá). Também então, Olavo conheceu e estudou com grande interesse a obra de alguns pensadores romenos, como Constantin Noica, Nicolae Steinhardt, Lucian Blaga, Petre Țuțea.

No ano de 2000, Olavo de Carvalho foi condecorado pelo Presidente Emil Constantinescu pela contribuição dele ao desenvolvimento romeno-brasileiro, com a Ordem Nacional do Mérito, em grau de Comendador (nessa ocasião foram condecorados outros brasileiros que deram tal contribuição, universitários, políticos, homens de negócios; as relações romeno-brasileiras passaram a ter nesse período uma intensificação poderosa, devido em grande medida à energia e ao entusiasmo de Jerônimo Moscardo).

Nessa época, eu convidei Olavo de Carvalho para um encontro com um grupo de amigos, entre os quais se enumeravam Marius Bostan, Valentin Miron, Gelu Trandafir e outros. Contei-lhe como nascera o nosso grupo, como nos tínhamos conhecido e feito amizade no quadro PNȚ, como combatêramos combates difíceis, não apenas com o regime pós-comunista russófilo de Iliescu, mas também com os tentáculos deste que tinham penetrado no PNȚ, conseguindo destruir afinal o maior partido histórico romeno.

O paradoxo era que então nos achávamos no governo, era no tempo de Radu Vasile, muitos de nós nos aproximáramos da equipe do primeiro-ministro e trabalhávamos no Palácio Vitória. Mas, lamentavelmente, os reunidos àquela mesa já sabíamos que o PNȚ já não existia de fato, fora esvaziado pelas entranhas, empalhado e desviado. O primeiro-ministro do PNȚ não se beneficiava de fato de nenhum apoio do partido que ele representava oficialmente, e nós fôramos obrigados a abandonar aquele partido, porque o seu título já não correspondia ao conteúdo declarado. Permanecêramos, porém, com aquele grupo de amigos, não apenas os presentes no encontro com Olavo, mas também muitos outros, de todo o país, pessoas que conhecíamos bem, ao lado dos quais passáramos por muitas provas e sabíamos, eles e nós, que podíamos basear-nos em qualquer circunstância uns nos outros. Juntamente com eles pus as bases da Fundação “Nova Geração” (o nome não tem nada que ver com o partido becalista que apareceu ulteriormente, e se alguém copiou alguém, perguntai a “seu” Gigi). Mais tarde, depois que meu pai, Ioan Bărbuș, um dos líderes do partido Camponês Nacional [PNȚ], ex-detento político por 17 anos, passou desta vida para a eternidade, em 2001, mudei a denominação da fundação e lhe dei o seu nome – como símbolo dos princípios pelos quais lutou e para honrarmos a sua memória.

Então perguntamos a Olavo o que nos aconselhava. Era pena deixarmos dissipar-se o potencial de que dispúnhamos e pensávamos no que seria melhor fazermos. Voltarmos todos para o que restara do PNȚ e tentarmos desratizá-lo? Entrarmos em outro partido, tentarmos influenciá-los com nossas idéias? Tentarmos pôr as bases de um agrupamento político próprio?

Olavo respondeu-nos, e a resposta dele nos marcou o destino pelos próximos dois decênios. Disse-nos que, se quiséssemos que no nosso país existisse algum dia um partido assim como o queríamos nós, se quiséssemos ter alguém em quem votar de todo o coração, não nos satisfazendo eternamente com o “mal menor”, tínhamos primeiro de conduzir a guerra cultural. Antes que as nossas idéias se concretizassem numa estrutura política, elas tinham de ser conhecidas e circular na sociedade, ser formuladas e discutidas em livros, na mídia, em diversos institutos. Aconselhou-os a primeiro nos prepararmos, a lermos, a nos formarmos, a entendermos bem o que acontece na cultura, em nosso país, no mundo, explicarmos também aos outros, a defendermos o que tinha de ser defendido e a propormos soluções.

Seguimos-lhe o conselho. No começo, limitávamo-nos a reuniões em nosso grupo, menores ou maiores, em que nos apresentávamos uns aos outros, em função das áreas de interesse e de conhecimento de cada um de nós, diferentes temas, artigos, livros, e depois os discutíamos. Começamos a escrever. Criamos uma pequena revista, de circulação restrita, mais entre os membros do nosso grupo, chamada “A Nova Geração”.

Depois de alguns anos, criamos o blogue “dreapta.net”, da Fundação Ioan Bărbuș.

Nesse ínterim, Olavo de Carvalho estabeleceu-se com a família na Virgínia, EUA. Segui-lhe com fidelidade a página de internet por anos a fio. Ele já era muito conhecido como jornalista no Brasil. Escrevia para O Globo, Folha de São Paulo, Veja etc. Mas, à medida que a popularidade dele crescia exponencialmente ao redor dos leitores, as mídias mainstream brasileiras começaram, pouco a pouco, a cortar-lhe a colaboração, a fechar-lhe o acesso ao público, tentando fazê-lo calar-se. Muito tempo Olavo ficou apenas na qualidade de correspondente do Diário do Comércio, publicação da Câmara do Comércio de São Paulo, que tinha seu próprio peso, e portanto, independência, e conseguia escapar à censura ideológica da esquerda, sendo conduzido com coragem e honestidade por Moisés Rabinovici, amigo de Olavo.

Felizmente, a internet se desenvolvia naquele período, conseguindo quebrar o monopólio de informação da mass media clássica. Então, Olavo de Carvalho lançou suas célebres emissões semanais online com o título „True Outspeak”.  Eram conferências acessíveis pela internet a quem quer que quisesse ouvi-las, dirigidas ao público amplo, numa linguagem simples, viva, espontânea, freqüentemente salpicada com explosões de temperamento, piadas, e mesmo palavrões. O Professor Olavo tinha um talento pedagógico extraordinário e era um comunicador quanto se pode de dotado. Os episódios de “True Outspeak” se tornaram popularíssimos, esperados com impaciência por muitos, por que não, também pela sua parte de show.

Ateismul de stat. Despre îndepărtarea însemnelor religioase din locurile publice - ILD
True Outspeak 22 de novembro de 2010, Ateísmo de estado. Acerca da retirada dos símbolos religiosos dos locais públicos

E foi muito bom que tenha sido assim, porque a mensagem chegou a pessoas que, de outro modo, não teriam nunca acesso a ele. O tom, o gesto, a mímica, as expressões sugestivas e surpreendentes não faziam de maneira nenhuma cair o nível do conteúdo exposto, mas o faziam atraente, fácil de entender, de memorizar e de comentar depois com os outros. Olavo podia falar nessa linguagem acerca dos mais difíceis problemas da filosofia, da fé, da gnose, acerca de qualquer coisa – lembranças pessoais, política, história, literatura, música, geopolítica; mas também acerca das bandidagens comunistas do PT, o partido de Lula da Silva, do Foro de São Paulo – a internacional, ou dito melhor, a máfia continental comunista, ligadas por milhares de fios do terrorismo, tráfico de drogas, assim como dos regimes russo e chinês (Olavo de Carvalho quebrou o monopólio de silêncio acerca desse tema, que ninguém antes ousara a contar na mídia), da ditadura do politicamente correto neomarxista, do islã e jihad, das atualidades políticas e culturais de todo tipo.

Ao longo dos anos, escutaram-no milhões de brasileiros. Mas seria totalmente errado crer que o segredo do sucesso de público de Olavo se encontrava apenas no estilo atraente de comunicação. Foi também isto, mas na mais mínima medida. Contou muito mais o fato que descrevi mais acima, quando contava como eu li a primeira vez um texto de Olavo de Carvalho e vivi aquela reação “assim mesmo””, “como ele disse bem!”. Assim como eu, os ouvintes e leitores de Olavo encontravam freqüentemente, no mundo deles, na vida deles, na experiência própria, a confirmação das coisas ditas por ele. Verificavam que os prognósticos dele não tardavam a realizar-se e que os juízos que pronunciava eram corretos. Davam-se conta sozinhos de que Olavo tinha razão. A fórmula „Olavo tem razão”, „Olavo are dreptate”  tornou-se um lema político, chegou a ser escrita em cartazes, camisetas e banners, tornou-se hit musical e foi escandida por milhões de brasileiros nas manifestações anti-comunistas dos últimos anos, que atingiram proporções sem precedente na história da América Latina.

Praticamente, Olavo realizou sozinho esse desvio, antes cultural, somente depois político, de que nos falava então quando lhe pedimos o conselho. Ele chegou a mudar o curso da história de seu país e do continente latino-americano inteiro. E o “efeito Olavo” não deixará de funcionar e amplificar-se, agora que ele passou para a eternidade. Uma vez iniciado, já não pode ser detido.

Mais aqui:

„Olavo are dreptate” | #OlavoTemRazão

Paralelamente, para os que quisessem estudar mais aprofundadamente a filosofia com ele, Olavo lançou o Seminário de Filosofia e o COF (Curso Online de Filosofia). O interesse por esses cursos surpreendeu até a ele mesmo. Milhares de estudantes o seguiram, ao menos parcialmente. Assim, ele conseguiu, em alguns anos, formar uma nova geração de intelectuais brasileiros, de um nível incomparavelmente mais alto do que poderiam produzir as universidades gramcistas do país dele. Muitos deles já se tornaram visíveis na vida cultural e política brasileira, tendo agora seus próprios discípulos. Certamente este fenômeno continuará e crescerá, tendo a seu turno um impacto histórico a longo prazo.

Os cursos e os seminários de filosofia tinham, ao contrário de “True Outspeak”, um estilo sério e acadêmico. A participação em apenas um único desses cursos poderia mudar a vida de alguém. Desde as primeiras aulas, eras aconselhado, por exemplo, a fazeres sozinho um inventário de “suas opiniões” e a te lembrares de como chegaste a cada uma delas, se pesquisaste verdadeiramente em profundidade esse tema, ou se não fazes senão repetires como papagaio fórmulas tomadas da mídia. Outro exercício, também para os iniciantes, era fazeres um esboço de teu próprio necrológio, ou seja, a pensares no que gostarias que permanecesse digno de mencionar depois de tua partida deste mundo. São apenas dois exemplos de lições, não apenas de filosofia, mas de vida,  poder-se-ia citar inúmeros outros, desde as listas de leituras recomendadas por ele, da iniciação na problemática e na história da filosofia, até as contribuições dele totalmente originais, como, por exemplo, – os quatro tipos de discursos de Aristóteles, a paralaxe cognitiva, a mentalidade revolucionária, as doze camadas da personalidade.

Ao menos uma vez por ano, Olavo de Carvalho dava na Virgínia, EUA, um curso “presencial”, uma espécie de acampamento socrático de discípulos, de que participavam cerca de vinte brasileiros, chegados ali com esse escopo. Tive também eu a oportunidade de participar um dia em tal tipo de curso em 2007, quando visitei Olavo juntamente com Vali Miron (e fomos mimados por Roxane com pão de queijo e com o melhor café que já provei na vida). E no de 2009, dedicado à obra de Eric Voegelin, participei dele na totalidade. Eu era a única não brasileira dentre os participantes, a maioria já se conhecia, mas receberam-me a mim também, com calor e amizade. Olavo e Roxane nos convidaram a todos muitas vezes para a casa deles, onde eles encomendavam pizzas e Coca-Cola, Olavo gritava “silêncio!”, depois dizia em voz alta o “Pai-Nosso”, depois do que todos se punham a comer, todos falavam de repente, alguns socializavam com o cãozinho (um verdadeiro gigante), outros contavam histórias e riam até tarde da madrugada. No aniversário do professor, em 29 de abril, fomos todos convidados a festejá-lo, juntamente com a família.

Petrecerea de ziua de naștere a lui Olavo, 29 aprilie 2009, în Richmond VA, la cursul despre Voegelin

Festa de aniversário de Olavo, em 29 de abril de 2009, em Richmond VA, no curso acerca de Voegelin

Convém aqui uma palavra acerca de Roxane, a esposa amada de Olavo, seu anjo da guarda – porque sem ela, certamente, Olavo não teria podido fazer tudo o que fez. Roxane não foi apenas sua esposa e mãe de seus filhos, foi também a mãe de todos os alunos dele. Não sei como conseguia tomar conta de Olavo, de todos os problemas de saúde dele, educar os filhos, mais tarde os netos, manter uma case enorme, constantemente cheia de hóspedes, e alimentar a todos. Mas Roxane não fazia apenas isso, ajudava Olavo, como um apoio eficiente e colaboradora competente. E tomara sobre si todo o ônus da correspondência que subia a centenas, algumas vezes a milhares, por dia. Todos os que nos sentimos tão devedores ao Professor Olavo de Carvalho, devemos um imenso reconhecimento também a Roxane.

Mantive continuamente, embora não muito freqüente, ligação e correspondência com eles, certamente mais com Roxane. Recebi a autorização para traduzir e publicar, em língua romena qualquer texto e qualquer conferência de Olavo de Carvalho, o que fiz, numerosas vezes , para meu uso e de meus amigos, mas também de um público mais amplo.

Olavo e Roxane

Em 2010, depois do “acidente” de Smolensk, em que morreu o Presidente da Polônia, juntamente com quase uma centena de personalidades políticas e culturais, ou seja, uma grande parte da elite de direita polonesa, o nosso pequeno blogue “dreapta.net” se tornou mais visível, porque éramos os únicos que postávamos informações diretamente da Polônia, acerca das circunstâncias desta tragédia e das pesquisas feitas para a sua elucidação.

Embora os romenos comuns, homens de bom senso, concluíssem imediatamente que provavelmente não fora um acidente, mas um crime russo novo, grande e desavergonhado, a mass media em língua romena apressou-se, à época, em fazer rolar toda a desinformação que circulava então na imprensa mundial. Todos as notícias e comentários publicados/traduzidos em romeno sugeriam a culpa de Lech Kaczynski e a inocência de criança recém-nascida de Putin, assim como a do governo de esquerda de Donald Tusk, principalmente do Ministério de Assuntos Externos, conduzido então por Radek Sikorski (mais conhecido como “o marido de Anne Applebaum”). Tusk, Sikorski e a equipe deles, inimigos figadais de Kaczynski, eram os que tinham enviado o avião para “reparo” na Rússia, na oficina de Oleg Deripaska, exatamente antes do vôo fatídico. O vôo também eles o tinham organizado, pondo em curto circuito a Chancelaria do Presidente da Polônia, mas em estreito entendimento com os russos – e, portanto, evidentemente, faziam cara de inocentes. E depois disso, eles também deixaram toda a investigação nas mãos das autoridades russas, cuja honestidade e competência está, assim como se sabe há muitos séculos, para além de qualquer dúvida.

Talvez uma desculpa para a tomada e propagação desta desinformação pudesse constituir a dificuldade (no entanto, superável) de acesso dos jornalistas a informações em língua polonesa. Mas, lamentavelmente, não era apenas isto, mas aquelas bem conhecidas: a grande incompetência, o conformismo e a flexibilidade vertebral do tipo de jornalismo que eles servem de regra aos romenos, e não apenas quanto ao tema Smolensk.

Nessa ocasião triste e chocante, dos acontecimentos de 10 de abril de 2010, olhamos ao redor e não encontramos muitas páginas de internet em romeno interessadas verdadeiramente na elucidação deste acontecimento, que nós considerávamos como um desvio sinistro da história, com implicações de proporções do 11 de setembro de 2000. Para os poucos que não se intimidavam em mostrar tal interesse estavam aqueles que se tornariam nossos colegas, do blogue “patrupedbun”. Encontramo-nos com eles muitas vezes e decidimos fundir-nos, lançando o site “În linie dreaptă”, ILD.

ILD  constituiu a principal via pela qual Olavo de Carvalho chegou ao público romeno. E pode ser que não tivesse existido se não fosse por Olavo.

Em junho de 2011, Olavo veio novamente a Bucareste, convidado pelo Instituto de Investigação dos Crimes do Comunismo e a Memória do Exílio Romeno (IICMER) juntamente com a nossa Fundação, “Ioan Bărbuş”, e foi o orador principal da Conferência “Utopia, Mito e Revolução.”

A par da conferência propriamente dita, Olavo se encontrou então e conversou longamente com Vladimir Tismăneanu, que conduzia naquela época o IICMER e se esforçava em dar mais profundidade às pesquisas do Instituto, não apenas quanto ao estudo dos crimes comunistas propriamente ditos, mas também quanto aos recursos ideológicos que levaram a esses crimes. Nessa perspectiva inscreveu-se de maneira brilhante a conferência a que fora convidado Olavo.

Devo ainda dizer aqui que, indiferente dos meandros anteriores e ulteriores de Vladimir Tismăneanu, permanece-lhe o mérito de ter conduzido a Comissão Presidencial para a Análise da Ditadura Comunista da Romênia, criada pelo Presidente Băsescu. A essa Comissão devemos o Relatório em cujas pegadas o Presidente Traian Băsescu pronunciou solenemente, em 2006, a condenação do comunismo como regime ilegítimo e criminoso.

Por ocasião da visita a Bucareste de 2011, Olavo conheceu pessoalmente também a Horia-Roman Patapievici. Já lera com muita atenção e interesse o livro “O homem recente” e estava extremamente impressionado com a profundidade e seriedade do estudo. Ficou igualmente impressionado com os encontros e conversas com o autor, e entre eles se criou imediatamente um relacionamento caloroso de amizade.

Graças a Bronislaw Wildstein conseguimos organizar também naqueles dias uma breve visita de Olavo a Varsóvia. Tive o privilégio de acompanhá-lo nessa viagem e assistir às conversas muito interessantes que ele teve com Wildstein e com outros intelectuais poloneses convidados por este. Olavo queria, havia muito tempo, chegar à Polônia, país que ele amava à distância, pelo mérito único que teve na derrubada dos regimes comunistas da Europa Oriental. Também ele ficara muito chocado com os acontecimentos de Smolensk, um ano antes, e estava convencido de que não podia tratar-se de nenhum “acidente”.

Não vi mais Olavo depois do ano de 2011, mas troquei algumas mensagens, tanto com ele, quanto com Roxane. Visitou-o ainda Marius Bostan, algumas vezes, nos Estados Unidos.

Através de Olavo de Carvalho conheci Elpídio Fonseca e sua esposa, Cristina Mănescu, romena, estabelecida no Brasil. Imediatamente ficamos amigos. Elpídio e Cristina se haviam conhecido nos cursos de Olavo. Não são o primeiro nem o último casal de discípulos de Olavo que se encontraram graças a seus cursos e, mais tarde, ligaram seus destinos, formando famílias felizes. Elpídio aprendeu a língua romena à perfeição. A conselho de Olavo, e com a ajuda inestimável de Cristina, Elpídio traduziu em português muitos livros de autores romenos – Nicolae Steinhardt, Constantin Noica, Gabriel Liiceanu, Andrei Pleșu, Vladimir Tismăneanu, Lucian Blaga. Suas traduções foram publicadas no Brasil. Elpídio é também o tradutor em português de muitas obras de Eric Voegelin.

Elpídio Fonseca, Cristina Mănescu, Elsa-Anca Bărbuș e Anca Cernea em Bucareste, em 2009

Em 2016 foi publicado pela Editora Humanitas o livro que traz a polêmica em que Olavo de Carvalho deu um knock-out em Alexander Duguin, o xamã satanista do regime Putin.

Olavo não se se encontrou nunca pessoalmente com Duguin. O duelo de argumentos entre eles foi organizado por alguns adeptos brasileiros de Duguin. Constou de uma alternância recíproca de exposições e respostas às exposições, e, no final, ambos apresentaram conclusões.

O tema é de grande importância, “Os Estados Unidos e a Nova Orcem Mundial”. Se as pessoas lessem mais nos dias de hoje, faria bem a muitas a leitura deste livro. É um confronto espetacular entre, de um lado, a argumentação racional, luminosa e aberta, na defesa da Civilização do Ocidente construída no cristianismo, e, de outra parte, a verborragia incoerente, cheia de veneno e de ameaças camufladas numa linguagem confusa, enfeitada de metáforas, na defesa do “eurasianismo”, uma combinação de bolchevismo, nazismo e ortodoxia com elementos pagãos, todos orientados de fato para justificar o apetite agressivo russo – agora, depois que o comunismo faliu sob a forma do século XX e a Rússia tem necessidade de outros pretextos do que o velho marxismo.

Em sua contribuição, Olavo descreve os três grandes projetos com ambição de domínio global: o projeto russo-chinês, o islamista e o da esquerda ocidental. Explica as relações complexas dentre esses três, assim como a aliança deles contra o inimigo comum: a Civilização Ocidental, judaico-cristã. Nesta configuração, a posição dos Estados Unidos está de maneira clara da parte da Civilização Ocidental. Dos EUA depende no presente a sobrevivência desta Civilização. Mas sendo a América um país pluralista, em que o poder político é exercido alternativamente por diferentes forças políticas, nela também se manifesta, com muita força, irradiando também para fora dela, o projeto globalista da esquerda ocidental. Olavo sublinha, porém, que este projeto, da esquerda ocidental, fortemente representado na América, é fundamental e explicitamente anti-americano, não podendo ser posto em aplicação sem o enfraquecimento até o desmoronamento da posição de poder dos EUA no mundo.

Duguin põe, como poderia ser diferente?, o epicentro do mal do mundo nos Estados Unidos que, sustenta ele, urde o plano de estender seu domínio por todo o globo, sob a forma da Nova Ordem Mundial. Em outros escritos, igualmente, Duguin afirma abertamente que os EUA têm de ser destruídos, mesmo se isso apressasse o Fim do Mundo. Não tem sentido procurares um fio racional nos textos de Duguin neste debate. O fio é de fato a tentativa de construir uma justificação ideológica para o ódio agressivo diante da América e diante do Ocidente. Este parece ser o trabalho de Duguin na estrutura de poder do regime neo-soviético de Putin. A leitura das partes de Duguin deste livro é difícil, opressiva. Ficas, depois dela, com uma sensação que te expuseste a algo tóxico. Sentes necessidade de sair ao ar livre e fazeres uma prece, para fazeres respirar um pouco a mente e alma.

O livro não se encerra com nenhuma decisão de um júri quanto ao vencedor deste jogo. O leitor é livre para o estabelecer sozinho. Praticamente, porém, impõe-se a conclusão de modo evidente. É um knock-out barulhento, não uma vitória por pontos. Lede o livro e vede.

Em nossos dias, nas condições de guerra híbrida em que nos encontramos agora, na situação de pandemia produzida pelo Partido Comunista Chinês, quando a desinformação russa atingiu um nível de descaro inacreditável e, lamentavelmente contaminou muitas mentes que não creríamos tão vulneráveis, quando o descaro de Putin e a fraqueza dos líderes ocidentais levaram o mundo ao limiar de guerra mundial, a retomada deste livro, a sua leitura atenta, com entendimento, não apenas o simples folhear, poderia ser extremamente útil.

Os leitores teriam ocasião de esclarecer-se em relação a muitas perguntas e confusões opressoras do presente. Poderiam encontrar referência, identificar a aposta dos confrontos dos acampamentos implicados, poderiam definir a própria posição diante deles. Sem estes esclarecimentos fundamentais, é impossível encontrarmos o caminho no meio do espinheiro de informações contraditórias e do oceano de mentiras demoníacas a nosso redor.

Outra conclusão, a mais importante afinal, que o leitor tem a chance de tirar da leitura deste livro, se tiver a abertura e a inteligência necessárias, é que, afinal de contas, a luta entre o bem e o mal, entre a verdade e a mentira, a luz e as trevas, é de natureza espiritual. Sem levar em conta este patamar, sem nos armarmos com “as armas de Deus”, de que fala São Paulo na Epístola aos Efésios, não podemos resistir “às armas do diabo” da história.

Aqui chego ao mérito maior, mas também ao mais difícil de medir, que Olavo ganhou neste mundo: levou de volta numerosas almas à fé em Deus e à prática da vida cristã. A maior parte dessas histórias pessoas permanecerão desconhecidas a não ser para aqueles em causa e Deus. Mas são dezenas de milhares de testemunhos, sob a forma de mensagens que Olavo recebeu, ao longo do tempo, dos leitores e ouvintes, que agradeciam a ele, em palavras muito emocionantes, a volta deles a Deus ou que os ajudou a redescobri-Lo e a aproximarem-se Dele. Muitos vinham do marxismo, outros da New Age, yoga, budismo, de vidas desordenadas e machucados por muito sofrimento.

Olavo não pregava, no sentido comum, de igreja, do termo. Mas apresentava límpida e convicentemente a relação entre fé e razão. Reduzia a pó, sem esforço, e mesmo com muita diversão, os argumentos do ateísmo. A sua vasta erudição permitia-lhe explicar as diferenças entre o cristianismo e o islã, entre o cristianismo e o paganismo, respectivamente as seitas gnósticas. Respondia com paciência às perguntas e às objeções, muitas vezes pueris, dos ouvintes de True Outspeak, sabendo que, para muitos deles, das respostas dele dependiam as grandes escolhas da vida. Olavo não desprezava as pessoas simples, mas podia ser muito duro com intelectuais ocos e que se davam ares.

Talvez tenha contado mais o seu exemplo pessoal. Um homem de uma inteligência tão brilhante, dispondo de uma cultura imensa, de conhecimentos precisos e profundos de tantos domínios, testemunhava sem reserva a sua fé, reconhecia abertamente que se considerava um grande pecador, que rezava (dizia também como o fazia), que não faltava nunca aos domingos ou às festas da igreja, que se confessava, que comungava e que aconselhava todos a fazerem o mesmo. Defendia a Igreja Católica, mas não temia criticar as derrapagens de muitos servidores dela, e até mesmo de papas.

Olavo esperando na fila de confissão. ©Josias Teófilo.

Contava com humildade por quantos descaminhos passara ele próprio até voltar para a fé. Na adolescência fora comunista, e até mesmo ativo, em contato com membros das guerrilhas do tempo do regime militar do Brasil. Mais tarde foi atraído pelo islã, aprendeu a língua árabe e chegou até a fazer parte de uma tarica, uma célula esotérica islâmica, da qual escapara com dificuldade. Confessava abertamente, em público, também todo tipo de outros pecados pessoais cometidos na juventude, pelos quais tinha pedido perdão a Deus, contando com a misericórdia Dele.

Falava com simplicidade e diretamente do amor e do perdão, da morte física e da vida eterna, levando coragem e esperança à alma de inúmeros de seus ouvintes e leitores, cada um com seus dissabores. O bem que fez a essas almas não pode ser quantificado por nós, somente Deus sabe quão grande foi.

Mas podemos ver os frutos na escala de uma sociedade inteira. A mobilização maciça anti-comunista do Brasil dos últimos anos tem, antes do substrato cultural de que já falei aqui, um substrato espiritual. Milhões de manifestantes dos encontros anti-PT e pró-Bolsonaro rezam. Recitam juntos o “Pai Nosso”. O povo brasileiro votou em Bolsonaro, um presidente que não se envergonha de declarar sua fé cristã.

Embora as vitórias políticas obtidas no Brasil se tenham devido em grande medida a Olavo, elas levaram para a vida dele mudanças de maneira nenhuma cômodas para ele e sua família. Não foi mais fácil para ele. Ao contrário, depois dessas vitórias, a cruz que ele tomou ficou ainda mais pesada.

Ao longo dos decênios, Olavo atraiu sobre si, certamente, muitos inimigos. Como já disse, não lhe faltou muito para ser assassinado no final dos anos de 1990. Escapou, vindo para a Romênia, depois, estabelecendo-se na América.

No entanto, os comunistas são grandes especialistas também em outro tipo de assassinato, o assassinato moral. Lançaram ataques na imprensa, mas Olavo os reduzia a pó com facilidade e os fazia dignos de riso, e o prestígio dele não fazia senão crescer. Tentaram reduzi-lo ao silêncio, cortar-lhe o acesso na mídia, mas não conseguiram porque ele encontrou outras modalidades de comunicar-se com seu público. Olavo estava acostumado a ser detestado e atacado, e não parecia importar-se muito com isso.  Aceitara de maneira consciente assumir as consequências quando partira por este caminho.

Mas juntamente com a vitória de Bolsonaro nas eleições, as coisas tomaram proporções sem precedente. O Brasil é um país do tamanho de um continente, com grandes recursos e grande potencial econômico e geopolítico. Bolsonaro atrapalhava os planos de todos os bandidos e mafiosos da América Latina, além daqueles dos russos, chineses e da esquerda ocidental. Declarava-se pró-americano, pró-Israel, era amigo de Trump, opunha-se veementemente ao Foro de São Paulo, que até então dominara sem ser perturbado na América Latina (ao passo que o Brasil, conduzido por Lula e pelo PT, sustentava financeiramente as ditaduras comunistas e as suas teias da região). Os eixos do mal de todo o planeta começaram a analisar mais atentamente como fora possível que Jair Bolsonaro chegasse a Presidente.

 O que precisas saber acerca de Jair Bolsonaro, presidente conservador do Brasil, para não pareceres idiota

Olavo de Carvalho tornou-se o alvo de uma máquina de calúnias de proporções mundiais. Não era possível para uma única pessoa lutar contra ataques de tamanha extensão. Nem mesmo tinha como saber que porcarias se escreviam a seu respeito em todos os cantos do mundo, como responder a elas, com que recursos processar todos os mentirosos. Além disso, teve também grandes decepções, algumas pessoas que ele formou lhe deram as costas, muitos amigos (ora, ele os tinha considerado amigos) o traíram. Muito dolorido para ele foi o fato de uma de suas filhas, Heloísa, (Olavo teve oito filhos), uma pessoa vulnerável psicologicamente, ter sido atraída paras as campanhas maquinadas contra Olavo, juntando-se ao PT, o partido de Lula, malta de gatunos do Brasil, aliados de Castro, Chavez e Ortega.

A saúde física de Olavo não era muito boa nem antes, mas juntamente com o envelhecimento, as coisas pioraram, principalmente no contexto dos ataques descritos acima. Sofreu com coragem e serenidade muita dor. E também neste sentido, foi um exemplo de vida cristã para muitos.

Agora que partiu para o Senhor, os ataques a ele endereçados não cessaram. Na Civilização judaico-cristã, assim como na greco-romana, e em outras, igualmente, codificava-se certa reserva, exigia-se uma atitude de respeito diante dos mortos. Exigia-se que, mesmo que tivesses tido desacordos com o falecido, falasses da morte dele com decência, falasses, o quanto possível, coisas boas, que te abstivesses de atacá-lo. Ao menos por um certo intervalo de luto, convém manter certa retenção, certa reserva. Não assim entre os bolcheviques. Os bolcheviques não se sentem presos por tais regras. Nem dessa humanidade elementar, natural, anterior a qualquer código cultural.

Os bolcheviques do século XX não se satisfaziam em matar, ainda zombavam, ritual, satanicamente, dos corpos sem vida das suas vítimas e jogavam-nos em covas anônimas, para não mais poderem ser encontrados. Depois tentaram apagar da história até a memória dos assassinados.

Os bolcheviques de hoje fazem-no simbolicamente. Nem no The Guardian, nem em Hotnews, nem na Europa Livre, nem na “velha” mass media brasileira (ou seja, de orientação comunista, lulopetista), não faz sentido procurares uma mínima decência diante da morte deste grande brasileiro.

Um monumento de estupidez e má-fé

Eis uma mostra em língua romena, um artigo em Hotnews, um monumento representativo de estupidez e má-fé (“Astrólogo, filósofo, corona-cético: Olavo de Carvalho teria morrido de COVID-19 / o “guru” de Jair Bolsonaro foi condecorado com a Ordem Nacional do Mérito da Romênia em grau de Comendador”)

As “informações” parecem tiradas sem passagem pelo cérebro próprio do The Guardian. A técnica empregada é a conhecida: a repetição de algumas palavras-gatilho, como uma espécie de sinais dirigidos à turba, para saber que “vamos ladrar para este”; Olavo expôs o procedimento neste artigo:

Histéricos no poder e a animalização da linguagem 

O primeiro rótulo é “astrólogo”. Para o imaginarmos como uma espécie de Mama Omida. De repente abaixa-lhe o estatuto, é classificado ao lado de atividades esquisitas, de qualquer modo, sem seriedade, bruxos, bruxas, coisas assim.

Olavo não era astrólogo. Tivera interesse nesse domínio, como no da alquimia e das origens ocultistas da ciência moderna. Não que tivesse Hotnews alguma ideia das pesquisas de Olavo neste domínio, o que houvesse ali alguém com competência de manter uma discussão com ele neste tema ou em qualquer tema, quando ele estava vivo. A idéia é apenas reduzi-lo a uma espécie de “adivinhador nas estrelas”, principalmente agora, que está morto, e não pode responder.

Depois, segue-se a redução do legado inteiro, gigantesco, deste grande pensador, de quem todos nós tivemos a sorte não merecida de sermos contemporâneos, a “declarações controversas acerca do coronavirus e da pandemia”. Aqui, os intelijumentos de Hotnews se encontram com os russófilos mais velhos e mais jovens, agentes ou tolos, que empregam Olavo como argumento de autoridade pelas duas únicas coisas que lhes cabem nos cérebros: a plandemia e o anti-vacinismo. Não creio que pudessem encontrar algo mais periférico e irrelevante quando se trata de resumires toda a herança, toda a vida e toda a obra de um Olavo de Carvalho!

É inacreditável quantas pessoas consideram nesses dias que o conhecem suficientemente e que podem permitir a si mesmas defini-lo. Eu, há vinte e cinco anos leio e ouço Olavo diariamente, sem interrupção, traduzi de seus textos centenas de páginas, conheço o português, conheço o contexto (talvez não suficientemente, mas é certo que mais do que os rapazes de Hotnews), tive a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, de escrever-lhe, de perguntar-lhe todo tipo de coisas – mas não me sinto em condições de sintetizar-lhe as idéias em algumas frases, não ousaria resumir o pensamento filosófico de Olavo de Carvalho. Não sei se rio ou se choro (antes chorar), quando vejo tais “jornalistas”, assim como palpiteiros e opinadores das redes sociais, que não têm hesitações, se sentem aptos a fazê-lo. A eles parece-lhes simples!

Mas voltemos ao artigo. O termo “guru” é empregado para sugerir que temos que ver com uma seita, “guru” é o chefe absoluto da seita, ou seja, um ser que manipula e controla totalmente os adeptos, e estes o obedecem cegamente e o idolatram. A imprensa filo-comunista do Brasil tentou colar em Olavo de Carvalho o selo de “guru”, repetindo como um mantra expressões como “Olavo de Carvalho, guru da direita”, “guru do bolsonarismo”, “a seita olavista”. E agora continua a fazê-lo. E os papagaios de Hotnews tomaram também essas palavras, nas fileiras de The Guardian – evidentemente não tendo a menor noção do que dizem.

O homem de quem falamos, Olavo de Carvalho, tratava seus alunos como um pai, acolhia-os em sua casa, dava-lhes de comer, dava-lhes livros, respondia com paciência angélica às perguntas, entre as quais muitas eram tolas, encorajava-os quando tinham contratempos e ajudava-os como podia. Ninguém obrigava àqueles alunos a aproximar-se do curso, ninguém ficava ali se não queria ficar.

Relatei mais acima como eu fui recebida na casa de Olavo e de sua esposa, inclusive a atmosfera e a comida, como testemunho do que vi e vivi.

É verdade que, sem Olavo de Carvalho, os brasileiros poderiam ter-se atrasado decênios até se livrar do comunismo e eleger um presidente como Jair Bolsonaro. O próprio Bolsonaro, assim como seus filhos, se beneficiaram também eles dos ensinamentos de Olavo. Não estavam inscritos nos cursos dele, mas ouviam suas conferências e leram muitos de seus escritos. Igualmente foi o caso de muitos dos colaboradores do Presidente; assim como algumas centenas de milhares, talvez milhões de outros brasileiros.

Isto faz de Olavo o “guru de Bolsonaro”, ou “o guru do bolsonarismo”? E que mal haveria no fato de essas pessoas terem aprendido com Olavo? Estão proibidas de aprender de quem quiserem? Como podia Olavo controlá-las, pressupondo-se que tivesse querido fazê-lo? Que poderia fazer com elas, caso não o escutassem? Dar-lhes notas baixas? Puxar-lhes as orelhas? Ou, como podia Olavo manipular o voto de 58 milhões de “bolsonaristas”, nas eleições de outubro de 2018?

A referência a Heloísa não creio que tenha necessidade de comentários. É, além de baixeza, um ato de crueldade. Heloísa aparece em todos os artigos que anunciam, com alegria, a morte de seu pai, em todas as línguas do mundo. Por que será que ninguém pergunta nada aos outros 7 filhos de Olavo, ou a um de seus 18 netos?

O artigo de Hotnews continua com o título interno: “O papel do astrólogo na ascensão política de Jair Bolsonaro”. Nada acerca do monopólio cultural do marxismo, parafusado havia decênios no Brasil, nada acerca do fato de que Olavo, sozinho, sem dinheiro, sem instituições, sem apoio da mídia, conseguiu pôr de pernas para o ar esse monopólio de dois decênios, apenas com a força da palavra. Isto permitiu a um homem como Bolsonaro destruir o monopólio político dos marxistas mafiosos e tornar-se Presidente. Mas, se é para te informares segundo Hotnews, Olavo fez isso na qualidade de “astrólogo”, não de homem de cultura e intelectual de exceção. O homem de cultura Olavo de Carvalho não está nem um pouco presente nesse artigo. Nada acerca de sua obra, nem sequer a citação de um livro.

Mas Hotnews traz como testemunha um “analista” americano, “especializado nos problemas do Brasil”. Especializado, especializado, mas que ouviu falar de Olavo a primeira vez em 2013. Eu não me apresento como “analista especializada em problemas do Brasil”, mas ouvi falar de Olavo de Carvalho, comecei a lê-lo e conheci-o em 1997, dezesseis anos antes do “analista especializado” citado por Hotnews. “O analista especializado” nos diz que nos anos 2000, ou seja, treze anos antes que ele, como “analista especializado”, ao menos tivesse ouvido falar da existência de Olavo, este último era considerado “louco”. Ponto. Nem é necessário discutirmos ainda quem e por que motivo ele o considerava com tal. Importante é que se atiraram palavras-gatilho – “astrólogo”, “louco”.

É revoltante tanto a maneira insensível como Hotnews ataca a memória de um homem que morreu há apenas alguns dias quanto a maneira como a mesma Hotnews trata seus leitores, insultando-lhes a inteligência!

Mas, esperai um pouco, que ainda não se terminou.

O autor de Hotnews acredita que, até agora, já desfez Olavo.

Mas para não permanecer apenas com as “informações” tomadas de The Guardian, vem também com uma nota local, romena: o desmascaramento dos cúmplices romenos de Olavo!

–           Olha quem Emil Constantinescu condecorou em 2000! Se não acreditardes, olhai neste link!…como se Constantinescu tivesse de ter vergonha porque condecorou também alguém que merecia…

–           Olha quem foi convidado para dar conferência no Instituto de Investigação dos Crimes do Comunismo e a Memória do Exílio Romeno! Juntamente com a Fundação Ioan Bărbuș! A tradução ao vivo foi feita por Anca Cernea! Está ainda no youtube, olhe o link!…como se me passasse pela cabeça negá-lo…

Mas o cúmulo se atinge apenas no final. Hotnews nos diz assim:

–           „Um de seus livros “os Estados Unidos e A Nova Ordem Mundial”, escrito juntamente com o ideólogo russo Alexander Duguin, foi traduzido pela editora Humanitas, estando disponível neste site”. Nem aqui, o autor de Hotnews se esquece de mostrar, desmascarador, com o dedo, os cúmplices de Olavo da Editora Humanitas, já que o livro está disponível no site, eis o link, não finjais!

Mas a palavra mais tendenciosa é a “juntamente com”, enfiada entre o nome de Olavo e o de Duguin, sugerindo que esses dois fossem camaradas de turma, que escrevessem juntos, talvez à mesma mesa. Que Olavo é duguinista. Ou seja, exatamente o inverso do conteúdo do livro.

Talvez se explique tal enormidade apenas pela estupidez? Eu digo que não.

Parafraseando Joseph McCarthy, a coisa é muito precisa, muito visada, para a explicarmos apenas como estupidez.

Os bolcheviques de hoje sabem bem que, embora já não esteja aqui fisicamente, Olavo não vai parar de estragar-lhes os planos, por isso se agitam tanto para lhe comprometerem a memória.

Mas a falha que ele abriu na hegemonia marxista de seu país já não pode ser colada. As pessoas que ele despertou e formou não vão parar de lutar. Pode ser que seja difícil, mas com certeza o comunismo se arruinará afinal no Brasil.

Olavo vai assistir à cena, dali, do alto, com o sorriso que tinha quando foi fotografado em Bucareste, sentado na estátua derribada de Lênin. O cuspir de baixo para cima, por mais zeloso e histérico, não tem como atingi-lo.

Olavo em 1997, em Bucareste

Tradução romena por Elpídio Fonseca

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10 COMENTARII

  1. Obrigado à autora pela bela homenagem-testemunho à memória do prof.Olavo. Obrigado ao Elpídio Fonseca, pela tradução com a confiabilidade comprovada ao longo dos anos, estendendo a nós o alcance de obras romenas fundamentais.

  2. Boa noite! Gostei muito deste artigo, como é bom ouvir histórias de alguém que conheceu o prof. Olavo em 1997! Descobri fatos que não conhecia da vida do professor. A autora descreve exatamente o que eu mesma senti ao ler os escritos do professoe. Fiquei feliz em ver como ele também influenciou, e tem seu trabalho ao menos um pouco conhecido, entre os romenos.
    Apesar da enorme tristeza por sua morte, sabemos que a influência dele irá crescer cada vez mais. Tudo que ele fez não pode ser desfeito. Considero um enorme presente de Deus, totalmente imerecido, nos ter dado alguém tão maravilhoso como Olavo de Carvalho – sobretudo nestes tempos de mentira.
    Rezo pela alma do professor, mas tenho a firme esperança de que ele já está no céu, intercedendo por nós. Mesmo sem tê-lo conhecido pessoalmente, considero ele como um segundo pai e me sinto amada por ele.

  3. Feliz demais com esse texto, obrigado pela tradução Elpídio Fonseca, creio que o professor ainda será reconhecido como merece.

  4. Graças a Deus pelo conhecimento da verdade que liberta; Jesus foi crucificado e disse que nós teríamos aflições, mas que tivéssemos ânimo pós ele venceu o mundo! Ele ressuscitou, está vivo e um dia virá buscar se povo; enquanto isso lutemos para salvar as pessoas da ignorância que os leva a perdição. Minhas palavras não expressam bem o que gostaria de dizer, mas sei que poderão entender. Deus nos abençoe e nos guarde e faça resplandecer a sua luz sobre o nosso rosto. Deus abençoe o Brasil e o mundo com sua paz, paz que excede todo entendimento. Graças a Deus não estamos sozinhos, alguns soldados já se foram mas nosso general de guerra está conosco. Jeová Nissi.

  5. Excelente artigo. Ajuda a montar uma parte da história que escapa aos alunos brasileiros de Olavo.
    Obrigado à autora e ao tradutor.

  6. Tradução valiosíssima! O testemunho presencial de uma única pessoa de um país distante, relatado com sinceridade, sem pose e rico em detalhes, é suficiente para ruborizar qualquer consciência de quem afirma aquilo que desconhece sobre o grande filósofo e professor Olavo de Carvalho. Parabéns ao tradutor Elpídio Fonseca e a autora Anca Cernea pelo texto original. A semente plantada está sendo regada.

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